Como fazer uma redação – Missão Enem

Não há quem duvide de que, atualmente, as competências de leitura e escrita são imprescindíveis para os sucessos acadêmico e profissional. Nas mais diversas áreas e nas mais variadas carreiras, reconhece-se que ler com proficiência e redigir com clareza e precisão é uma necessidade. Quem tem dificuldades de leitura ou de escrita costuma ter problemas para prosseguir os estudos e para crescer profissionalmente.

Há razões de sobra para que os vestibulares deem um peso tão grande à prova de Língua Portuguesa: é, sobretudo, por meio dela que se avaliam as habilidades de leitura e redação. É fato que essas competências estão de tal modo valorizadas que são indispensáveis também às provas das outras disciplinas.

Não é raro um aluno errar um teste de Matemática não por desconhecer Álgebra ou Geometria, mas sim por ser incapaz de compreender o enunciado de um exercício. Analogamente, é comum um estudante não ter a nota máxima numa questão escrita de Biologia, por exemplo, não por desconhecimento do assunto, mas pela dificuldade de redigir com clareza a resposta. Por isso, não é exagero dizer que as competências de leitura e escrita são fundamentais para garantir o sucesso em todas as disciplinas.

O que se espera de um aluno que fará vestibular?

O exame de Redação no vestibular não é um concurso literário. Sua função é verificar se o estudante está informado sobre os grandes temas postos em discussão na atualidade e se ele é capaz de produzir um texto claro e bem argumentado sobre um desses temas.

A produção de um texto com essas características pressupõe que seu autor demonstre capacidade para fazer julgamentos críticos. Além disso, para a obtenção de uma nota de redação diferenciada, é necessária a posse de três grandes competências:

1ª competência: Compreender a questão posta em debate.

2ª competência: Produzir um texto num registro linguístico adequado.

3ª competência: Posicionar-se sobre essa questão de maneira crítica, convincente e, se possível, criativa.

1ª Competência para apreender a questão posta em debate

O principal motivo para anular uma redação no Enem é o candidato fugir do tema, isto é, dissertar sobre um assunto que não foi proposto. Isso denuncia que lhe faltou competência para apreender a questão posta em debate. Trata-se de uma incompetência de leitura, e não necessariamente de redação. A dificuldade de identificar o tema sugerido para reflexão pela banca examinadora acaba gerando textos que, em maior ou menor grau, distanciam-se do esperado.

Por diversos motivos, há situações em que essa apreensão não ocorre. Vejamos um exemplo.

No vestibular do meio do ano de 2001, a Fundação Getúlio Vargas apresentou o tema de redação a partir de um fragmento do artigo “A gestão para resultados como ferramenta administrativa nas organizações do terceiro setor”, de autoria de Luiz Rodovil Rossi Jr. Eis o texto, extraído de uma revista eletrônica:

Cresce a confiança depositada nus organizações de um setor em constante e forte expansão no Brasil e no mundo: o chamado terceiro setor. Nesse setor, as organizações são privadas e sem Uns lucrativos e complementam as iniciativas do setor governamental e do setor privado no atendimento de diversas necessidades da sociedade e na formação de um sistema económico mais justo c democrático.

Essas organizações, se encontram, em sua grande maioria, os indivíduos que valorizam o ser humano de uma maneira intensa e que estão inconformados com as desigualdades sociais e económicas que a lógica da economia de mercado acaba ignorando, e que o Estado do bem-estar social se mostrou incapaz de resolver.

O crescimento da consciência comunitária encontra, nessas organizações, um ambiente favorável a sua aplicabilidade. Os valores predominantes, bastante adequados para os que trabalham no desenvolvimento dessas organizações, são: democracia, transparência, coletividade, flexibilidade e criatividade.

Alguns candidatos às concorridas vagas do vestibular da FGV-SP cometeram o deslize de ler descuidadamente o texto proposto como base para a discussão. Em lugar de “terceiro setor’, alguns entenderam “setor terciário”; assim, em vez de dissertar sobre a importância do trabalho voluntário e comunitário, escreveram sobre a importância do setor de serviços na sociedade contemporânea. Essa confusão indica duas coisas: ou a apreensão do tema não foi bem feita (para evitar isso, convém dedicar mais tempo à leitura do texto) ou, pior ainda, aqueles candidatos não sabiam o que era ”terceiro setor” (nesse caso, vale lembrar que o repertório cultural de cada um está sendo avaliado no exame de Redação).

2ª Competência para produzir o texto num registro linguístico adequado

O candidato deve considerar a ideia de que todo texto é aperfeiçoável ao infinito. Por isso, convém usar a própria linguagem da maneira mais caprichada que o tempo disponível permitir. Isso não quer dizer que a redação deva ser escrita numa linguagem empolada e falsamente sofisticada.

Veja o que a Fuvest diz a esse respeito:

Serão examinados pontos como a propriedade e a abrangência do vocabulário empregado, além de ortografia, morfologia, sintaxe e pontuação. A ocorrência de clichés e frases feitas, o uso inadequado de vocábulos são aspectos, em princípio, negativos.

Essas observações apontam para a competência linguística em sentido amplo que os textos devem manifestar – no caso da dissertação, o domínio da norma culta escrita.

Muitas vezes, essa competência dá ao texto uma boa dose de credibilidade. E o que atesta este fragmento de um editorial da Folha de S.Paulo (19 mar. 2002, p. A-2) sobre a ousadia dos bandidos em ataques a prédios públicos na capital paulista:

Prédios e funcionários públicos tornaram-se alvos preferenciais dessa onda intimidatória desferida pelo crime organizado. Pode ser um indício de que, sentindo o endurecimento da polícia, os bandidos estejam ensaiando um contragolpe. Assusta a hipótese de que à já violenta rotina de São Paulo venha agregar-se um tipo de luta pseudoterrorista do crime organizado contra o Estado. Mas esse é um risco que é preciso correr se a alternativa fora acomodação á realidade da delinquência.

O texto contém vários indícios da competência linguística do enunciador — notem-se, por exemplo, a inversão sintática e as escolhas lexicais no período destacado. Além disso, a tese de que é preciso tomar uma providência em relação à “onda intimidatória desferida pelo crime organizado”, além de lícita, é defendida sem o tom ingénuo e panfletário de alguns textos que falam sobre a violência.

Sobre essa iniciativa que o estudante deve demonstrar para discutir de maneira satisfatória a questão posta em debate, a Fuvest afirma:

(…) verificar-se-á a pertinência da elaboração do tema, considerando-se lambem a capacidade crítica e argumentativa, bem como a maturidade e a inventividade que no texto se manifestam.

Depois de apreender e compreender o tema, cabe ao candidato demonstrar “capacidade crítica e argumentativa” na elaboração do seu texto. Isso significa que ele deve mostrar-se capaz de produzir, dentro do tempo disponível (uma hora e meia ou duas horas, aproximadamente), uma redação que manifeste uma reflexão própria a respeito do tema em questão. Em outras palavras, é preciso manifestar julgamentos críticos.

Não se trata de demonstrar a posse de um conhecimento já construído e comprovado, como o que se avalia nas provas de disciplinas específicas — tanto é que elas podem ser gabaritadas. O que o exame de Redação quer avaliar é, sobretudo, a competência de usar a capacidade criadora para ensaiar respostas sustentáveis para certas questões polémicas.

E claro que os conhecimentos adquiridos ao longo da vida escolar são importantes para a elaboração de uma boa redação, mas o que mais conta nessa prova não é a mera capacidade de reproduzir informações sobre o tema posto em discussão, mas sim a de explorá-las para encontrar uma resposta convincente, plausível e, quem sabe, criativa para o problema proposto como desafio.

A noção de julgamento crítico

Ao manifestar seu julgamento sobre uma determinada visão de mundo, o comentarista deve demonstrar olhar crítico para que sua voz seja ouvida e respeitada.

Para dar ideia do que se entende por olhar crítico, podemos confrontar essa maneira de opinar com outras duas, muito menos valorizadas:

1. A maneira mais rudimentar de exprimir uma opinião sobre alguma coisa é o que podemos chamar de opinião primária, baseada em reações quase fisiológicas, semelhantes às da linguagem animal, sem nenhuma demonstração de competência de análise. Exemplo disso são as apreciações feitas por meio de interjeições:

— O que o senhor pensa sobre política?
— Xiii!!! Vixe!!! Tô foral

Não é preciso mais que um exemplo como esse para pôr em evidência o quanto é depreciado socialmente esse tipo de manifestação, que se resume a externar uma reação emocional, quase corporal, de agrado ou desagrado, com baixíssimo grau de utilização da capacidade de raciocinar.

2. A segunda forma de expressar opinião é a que podemos chamar de apreciação estereotipada, formalizada por uma linguagem um pouco mais elaborada que a das interjeições, porém ainda pobre e fraca de competência de análise e, consequentemente, de poder argumentativo. Trata-se de uma opinião baseada na experiência pessoal apenas ou numa observação da realidade feita a “olho nu”, isto é, sem o apoio de nenhum método, sem nenhum instrumento de análise.

O resultado é a submissão do comentarista ao lugar–comum e aos padrões de avaliação restritos ao meio social em que vive, carregados, muitas vezes, de clichés, banalidades e preconceitos. Assim, o assalariado opina como assalariado, o patrão opina como patrão, o governo como governo, etc. O baixo teor de novidade dessa forma de expressão mostra a falta de perspicácia do comentarista e compromete consideravelmente o poder argumentativo dos seus comentários. Exemplo disso são redações cor-retas sob o ponto de vista gramatical, mas muito pobres sob o ponto de vista analítico.

— O que o senhor pensa sobre política?
— Os políticos são homens que se candidatam para se arranjar na vida. No mundo da política, só se vê mentira: político só fala o que o povo quer ouvir. Eles só pensam em ganhar voto. Em época de eleição, eles vão atrás do povão, depois viram as costas.

Tem-se a impressão de que essa resposta foi dada por um autómato repetindo o que ouve no metro, em casa ou na conversa de bar.

3. Um terceiro modo de fazer apreciação, muito mais valorizado que os dois primeiros, é o que vamos chamar de julgamento crítico. Manifesta-se por meio de uma linguagem bem mais elaborada, que põe à mostra vários ângulos do objeto analisado e os articula de maneira coerente.

O julgamento crítico não é resultado da impressão imediatista e primária de um observador que vê a realidade a “olho nu”, mas de uma análise criteriosa feita por um sujeito que procura ver a realidade sob vários ângulos e com a ajuda das mais variadas fontes de informação.

O poder argumentativo desse tipo de julgamento é muito mais alto que o dos dois anteriores e deve ser perseguido como o ideal de quem pretende construir um texto dissertativo merecedor de consideração e aprovação. Eis um pequeno exemplo:

— O que o senhor pensa sobre política?
— A maioria das pessoas vê a política com desdém, como se todos os ocupantes de cargos públicos e todos os aspirantes a esses cargos fossem, por definição, corruptos e incompetentes. Se” isso fosse verdade, seria muito fácil solucionar esse “problema”: bastaria mandar todos os governantes ou para a cadeia ou para a escola e substituí-los pelas pessoas que os criticam. Com isso, viveríamos numa sociedade mais perfeita que a da Utopia de Morus.
Na verdade, a política é a arte de administrar contradições, de fazer acordos, de negociar, de ceder, de endurecer, enfim, de governar. Talvez o universo político não mereça a admiração da maioria das pessoas. Mas é inegável que a política é necessária para a vida em sociedade, já que ainda não se inventou uma maneira mais eficiente de celebrar a democracia.

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